Biografia de uma infância derrubada

O nome dela era Daniela Albuquerque Medeiros Ribeiro da Silva, filha do diretor da maior fábrica de brinquedos instalada no País. Mas quando a empurrei com força no tanquinho de areia, em frente a sala do pré-primário, não sabia de nada disso.
Ela apenas me irritava. Não lembro se falou alguma coisa, ou só existiu. Mas a figura daquela menina de olhos verdes e longos cabelos lisos castanhos, me despertou um ódio social estranho para minha pouca idade e condição de moradora de Moema nunca esquecida por Papai Noel. Mesmo assim, ela, um tanto patricinha – “fresca” era o termo que me referia à época – com uma espécie de séquito de amas a segui-la, me tirou do sério.

Tínhamos seis anos no início do segundo semestre do ano letivo. Eu a conhecia há três dias, após ter sido transferida do meu colégio urbano de São Paulo para aquele com ares rurais em Cotia, onde em meio a salas de aula sem janela e comida vegetariana, aprendíamos sobre a influência dos gnomos na germinação das plantas.
Gostava daquela sala de tijolinho aparente, onde enfim aprendi a ler ouvindo histórias, a partir da cartilha “O Barquinho Amarelo”, em que me foi apresentada a Galinha Cocota. Os desenhos do livrinho eram suaves e encantadores. Se juntavam ao imaginário das sessões de leitura de “O menino do dedo verde”, em que Tistu, um menino estranho de nome estranho, se recusava a aceitar ideias pré-concebidas por adultos, não se enquadrava na educação formal e teve de “Sr. Papai” a chance de ao invés de ir para escola, aprender as coisas diretamente a partir de experiências.

Tudo muito alternativo, até a pena que recebi naquele início conturbado: levada à diretoria como qualquer criminosa mirim, recebi como punição a mesma violência que cometi. Eu tinha seis anos e levei cinco rasteiras da diretora da escola. O número é exato e por muitos anos me deu orgulho, já que eu o repetia a todos que me paravam para perguntar se era eu “que tinha lutado com a Anna”. Então eu detalhava: ela só conseguiu me derrubar na quinta tentativa, por isso foram tantas. Por fim, me deixou estendida no chão, até que minha mãe chegasse.

Sob o olhar de todos que passavam, eu não podia me mexer. Fiquei em exposição, sob análise dos que passavam e paravam à minha volta.
Alguns me chamavam de louca. “A louca que brigou com a Anna”. Meus colegas mais próximos nunca me julgaram. Tinham nomes como “Ana Brisa” e “Pedro Sol”.
Minha mãe nunca reagiu a essa violência contra uma criança. Me manteve na escola, apoiou a decisão da diretora em me punir.
Pouco antes de encerrar o primário, quatro anos e meio depois, fui ao aniversário da Daniela. A festinha acabou, meus pais não puderam me buscar. Dormi na casa da minha primeira inimiga e descobri que ela era divertida, humilde e gentil. Mesmo cercada de brinquedos da fábrica do pai, em um quarto que ficava no sótão, cheia de liberdade de ser, em uma família alegre.
A real é que nem eu nem ela sabíamos, mas me livrei da inveja.
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*Texto escrito para o curso “Eu, escritor”, do Sesc Belenzinho. A proposta era resgatar um episódio da infância e inserir uma ficção no meio. Como sou bem ruim de inventar, alterei apenas o nome da menina e o cargo do pai dela. De resto, a vida sempre foi mais doida que a ficção.

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