Deus

É claro que Deus acreditava nela.
Mesmo sendo moça de pouca reza e muito pecado – nenhum tão original, sublinhe-se. Aliás, morava aí a razão para tanta fé: ela cuidava da própria vida.
Não que fosse obrigação divina crer em todos os seus filhos. Alguns não lhe forneciam qualquer prova de existência. A maioria mal tinha tempo para se dar conta, entre o ir e vir mecânico do trabalho, que também é passível despertar fé. Mal percebe a vida passar, porque se prestar atenção na própria existência, perde a chance de entrar no próximo trem.
Mas ela não era assim. Pulsava, como se não houvesse vida após o expediente. Por isso mesmo, não entregava oito horas diárias por punhado de consolo nenhum.

A moça acreditava Nele, com ressalvas. Se perguntava: qual a função de um Deus? Assim, falando de forma prática, mesmo… É um Superior Tribunal dos Céus? Última instância da apelação dos processos terrenos?
Preferia não contar com esse tipo de apelação. Existisse Ele, ou não, melhor resolver as coisas por aqui mesmo.
Às vezes era difícil. Nos momentos mais complicados, acendeu velas. Foi atendida. Talvez porque pedisse pouco. Talvez por coincidência. Ou, quem sabe, Ele realmente achasse que eram justas suas razões.
Contando com essa possibilidade, não abusava. Não queria viver mais uma relação unilateral, ainda mais com o Todo Poderoso.
Passou a rezar pra si mesma. Descobriu que isso se chamava meditação. Buscou o Deus que vivia em si, e então deu-se a mais bela relação divina consigo mesma. Coisa que nem em suas preces mais honestas um dia ousou pedir.

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Texto para o CLIPE 2016, com o tema “Um narrador que acredite ou não em Deus”

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