Outra viagem?

Dias após a morte de seu pai, o alicerce da casa de Elane desabou. Logo também se foi o boi de estimação, morador do sítio da família. O bicho esteve prestes a virar churrasco nas mãos do filho mais velho, mas seguiu o conselho amigo da herdeira, que se adiantou na noite anterior e lhe falou no ouvido: “Vê se dá um jeito na sua vida, porque meu irmão quer dar cabo de você”.  Amanheceu morto, de causas naturais.

Ou (quem sabe?) teria sido uma intervenção extraterrena. Porque foi atrás dos habitantes de outros planetas que esta mulher, já quarentona, percorreu na juventude a estrada até a antiga hidrelétrica da cidade, a primeira a gerar luz para a pequena Cordisburgo.
Morto o pai, transformou a residência, agora de alicerces renovados, em pousada domiciliar que administra junto com a mãe, Dona Dadá. Os quartos são quase todos destinados aos inúmeros visitantes que penetram o sertão atrás do amor emanado pela obra de Guimarães Rosa, filho mais ilustre daquele “lugar do coração”, como o pomposo nome em latim o define. Do coração morreu Chico Luzia, amado cidadão cordisburguense, ao ver uma mulata do Sargentelli sambar. E também falhou para sempre o órgão propulsor de Rosa, três dias após tomar posse na Academia Brasileira de Letras, no Rio de Janeiro. Mas as pessoas não morrem, elas ficam encantadas. É o que ele disse em seu discurso de posse e despedida, grifado no muro do cemitério municipal.

No centro de Minas Gerais, lamenta-se que o lugarejo perdeu para Curvelo o posto de coração do estado. Logo ela, que tinha como padroeiro São José, mas por erro no envio da encomenda vinda da Europa, recebeu a imagem do Sagrado Coração de Jesus, e para ele construíram outra igreja, maior. Ficou.
Na cozinha de Elane e Dona Dadá, um frango é assado ao som de cocoricós. Inocentes, no enorme quintal de terra, as aves embarcam em um carpe diem, aproveitando o milho e as minhocas que puderem saborear em vida.

Dona Dadá não se comove. Mal entende a pergunta sobre ter pena da bicharada. “Uai, sô, é o destino delas, que mais haviam de fazer senão virar comida?”.  Boa pergunta.
Pelas ruas da cidade cercada de montanhas, outros bichos permanecem imóveis, em um zoológico de pedras, que reproduz as primeiras espécies que habitaram o território, berço da paleontologia no Brasil. A elefanta Lakisme, de unhas pintadas e nome inspirado em deusa indiana, não faz parte dessa variedade animal. É um capricho do escultor Stamar Jr., que precisava de um exemplar que tivesse tamanho suficiente para lhe servir de casa.
Os primeiros fósseis da mega fauna foram encontrados na Gruta de Maquiné, lugar de paredes coloridas e outros surpreendentes bichos de pedra, modelos originais da persistência do caminhar da água sobre a pedra há milhões de anos. Do alto, nem se desconfia que a montanha logo à frente esconde em seu útero uma caverna maior ainda. Ou lapa. Só muda o lugar de onde se nomeia. Como se comendo uma bergamota entrássemos em uma caverna, ou munidos de uma mexerica, desvendássemos uma gruta.
De nome Morena, dois quilômetros de extensão, ganhou o apelido carinhoso de Afonso Pena, que por sua vez dá nome a uma enorme avenida de Belo Horizonte.

A linha do trem cruza a cidade. O apito a cada quatro, cinco horas? A estação que parece casa de boneca. Do outro lado, uma estrada que leva ao princípio de tudo, quando os dez mil habitantes não passavam de um punhado, no entorno da Fazenda Saco dos Coxos. Segue a ponte. Um cigarro de palha. Uma falta de pressa. Um hotel de luxo que reproduz um arraial. Mais parece cidade cenográfica. Como pode tanta beleza? A piscina azul de fundo infinito mira para a montanha verde.
Na saída, não uma, não duas, mas três placas agradecem sua visita à cidade, que se sentiu engrandecida com sua presença.
Te desafio a ir embora de Cordisburgo.

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Texto escrito para o curso “Eu, escritor”, do Sesc Belenzinho, com o tema “crônica de viagem”

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