Côca, Côca, Coquinha…

De vez em quando reencontro essa foto e preciso escrever. Dividir a imensa saudade que tenho desta mulher, minha mãe cearense.
Porque só fui entender o que era família quando passei a morar na casa dos outros. Até então, esse era o nome que designava a reunião de pai, mãe e irmão em permanente briga, mágoas e ofensas.
Quando a agressividade do meu irmão foi aumentando e ele decidiu que eu deveria sair de casa, ninguém o contestou. Dei um jeito de me sustentar e ir morar na casa de amigos, ou em algum quarto alugado. Nas poucas vezes em que tentei voltar e fui novamente defenestrada, dolorosamente fui entendendo que aquele não era um modelo a seguir.

Assim, soube que a família da Juliana todo dia esperava a ligação dela depois do trabalho. Na da Mônica, ela era a única menina, e se acostumou com o mundo masculino dos irmãos. A da Nati é um conto de fadas.
Mas foi no Ceará que encontrei minha família. A mulher que não me deu à luz, mas me adotou aos 25 anos. Maria Socorro Silva Saldanha, viúva do “finado Joaquim Saldanha”, a melhor pessoa do mundo, com uma história digna de Dias Gomes (e na ausência dele, ouso um dia contar). Analfabeta, não sabe o dia em que nasceu, mas criou como se fossem dela os oito filhos de Luzanira, moça recém casada com Raimundo, que a levou pra morar no Crato. Hoje, após a morte do casal, ela é a matriarca, autoridade máxima. Sustenta a casa que fica atrás da Praça da Sé, no centro da cidade, com a aposentadoria que lhe deixou Saldanha, homem paraplégico que se casou com ela em reconhecimento aos 12 anos que cuidou dele, até sua morte.

É só por causa dela que hoje entendo a devoção que as pessoas têm pelas mães, pela família. Foi sua cama que ela deu para eu dormir, quando cheguei lá sem mais nem menos pra me hospedar, e com ela dividi por mais quatro meses, quando descobri que não queria ir embora. Era para aquela cama que eu fugia quando, já morando sozinha, não queria fazer nada além de me sentir segura. Ia até lá, não dizia qualquer palavra, deitava ao seu lado, assistia TV e ia embora, renovada.
Foi ela quem me disse que nunca vai faltar teto e comida pra mim. Que escondia meu prato no forno pra eu não deixar de almoçar se me atrasasse. Que olhava feio, fechava a cara mesmo, para qualquer pessoa que tivesse me feito algum mal. Que chorando, no dia em que parti pra São Paulo, explicou que o quarto que montou pra mim ainda estaria lá quando eu voltasse. E se alguém o ocupasse, logo seria retirado quando eu pisasse novamente no Crato. Fez meus sanduíches, limpou as lágrimas e eu vim embora.

Vim pra lembrar que passei a vida ouvindo que meu quarto não era meu, e sim um empréstimo que me foi ofertado. Para ligar uma última vez pra polícia quando meu irmão cortou a luz da casa e disse que ia matar a gente. E pra ouvir, também pela última vez, que eu deveria ir embora, senão ele me mataria. E que sim, ele continuaria lá.
Por isso, todos os dias eu me lembro da Côca, e não sei o que fazer de tanta saudade. E sou cruel, porque não ligo pra lá, porque falar me fará sofrer. Tem sido mais fácil agora, com o filho dela sempre conversando comigo no Facebook.
Quando me perguntam se sou cearense, digo que tenho família no Crato. Porque família é a que escolhe a gente, e minha raíz afetiva está lá. E, veja só: na terra de Padre Cícero, fui parar em uma família de Testemunhas de Jeová. Quanto aprendizado!

Aos poucos, a vida vai ficando mais óbvia e dividir histórias é menos uma exposição, e mais uma catarse. Um elogio a quem merece ser louvado.
Não adianta fazer drama e dizer que as coisas deram errado na minha vida. Ninguém que tem uma Coquinha pode reclamar de nada. Nada. É sorte demais.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s